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14/12/10

União de opostos pode dar certo, mas é preciso haver compreensão - Rosa Avello

Quando um parceiro é mais lógico e o outro mais emocional, não tem jeito: eles sentirão dificuldade de se compreender mutuamente. Porém, não é porque temos tendência a pensar de determinado modo que não podemos nos esforçar para entender o modo de agir do outro. Assim é que fazemos quando amamos e assim é que crescemos e nos tornamos melhores.

Recentemente escrevi, nesta coluna, sobre a Teoria dos Tipos Psicológicos, desenvolvida pelo psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961). Apresentada em 1923, ela diz, basicamente, que preferências mentais inatas determinam o modo como vemos o mundo e fazemos escolhas, o que, como já dissemos aqui, gera conflitos na vida dos casais. Mas há mais um aspecto nas conclusões de Jung que também impacta os relacionamentos: o fato de nos basearmos em apenas duas atitudes mentais para tomar nossas decisões.
Você deve estar se perguntando: "Como é que seres complexos como os humanos podem ter só duas atitudes para decidir?" A explicação está na divisão de nosso cérebro em dois hemisférios. Quando o direito é o mais usado, decisões e escolhas se baseiam em valores humanos, na harmonia e no que pode favorecer as pessoas e as relações. Quando o esquerdo prevalece, as decisões são mais impessoais, lógicas, justas e analíticas. Veja bem: não estamos falando da personalidade, mas do modo como a cabeça da pessoa funciona. A melhor ilustração de mentes dos dois tipos é a história do rei bíblico Salomão (século X a.C.), que, diante da disputa entre duas mulheres que se diziam mães de um mesmo bebê, ordenou que este fosse cortado ao meio. Assim, revelou a mãe verdadeira - aquela que abriu mão da disputa para preservar a vida da criança. Salomão usou o hemisfério esquerdo ao tomar a decisão. A mãe usou o direito ao desistir da contenda.
Nas relações afetivas, pessoas com atitude mental de escolha lógica acreditam que expressam amor ao parceiro quando o ajudam a resolver problemas, o apoiam na conquista de algum objetivo, provêm recursos para a vida a dois. Pessoas cuja mente escolhe por afetos não reconhecem ações dessa natureza como expressões amorosas, preferem receber palavras e gestos carinhosos, elogios e presentes como sinais de amor.
Os dois também diferirão na hora de ouvir os problemas do parceiro. Quem é de pensamento acredita que o outro precisa de ajuda quando fala de um problema. Aí, naturalmente, tenta dar a solução pronta. Já pessoas de sentimento partem do pressuposto que o outro pode querer apenas desabafar e ficam atentas aos seus sentimentos, em vez de dar a ele uma saída. Esse é um ponto comum de conflitos entre casais. A mulher, em geral de sentimento, chega em casa e quer desabafar com o marido certas dificuldades. Se ele for de pensamento, reagirá oferecendo saídas que ela poderia ter usado. Isso a irritará, uma vez que se julga capaz de encontrar as próprias soluções, o que ela queria era obter dele um pouco de "sensibilidade" ao final de um dia difícil. Ele, por seu lado, se frustrará ao ver suas ideias rejeitadas. Irritado, pensará: "Por que ela pede ajuda se não quer ser ajudada?" Vê? Não é que ele seja insensível. Apenas seu processo mental é diferente do dela.
Difícil? Nem tanto. A união de tipos opostos pode ser feliz. Basta que um pergunte ao outro como prefere ser tratado, ajudado, percebido - e aja de acordo com o que lhe foi dito. Isso é possível porque, embora as preferências mentais sejam inatas, podemos desenvolver o modo de pensar dos tipos opostos. É o que contribui para nosso crescimento e enriquecimento.
 
* Rosa Avello, psicoterapeuta na capital paulista, é especialista em sexualidade humana pelo Instituto Sedes Sapientiae, em psicodinâmica aplicada aos negócios pelo Grupo Dirigido (GD) e na aplicação do MBTI (instrumento de identificação dos perfis psicológicos) pelo Instituto Felipelli.  Site: www.rosavello.com

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