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15/12/10

Desânimo para fazer programas a dois é sinal de vazio na relação - Paulo Sternick

Depois de uma longa convivência, é natural que apareça, eventualmente, um certo tédio da companhia do outro. Mas, se existe amor e desejo, esse sentimento passa e volta o prazer de compartilhar. Agora, quando a falta de vontade de estar junto se torna constante, é bom o casal parar para conversar e tentar descobrir o que há de errado — porque alguma coisa há.

Se a ideia de sair de casa ou viajar - e passar um tempo só com ele ou com ela -, em lugar de criar excitação, incomoda, é hora de examinar onde a relação encalhou - ou se um dos parceiros está escondendo algo. Claro que às vezes o desânimo se deve à falta de dinheiro e tempo ou ao foco em outras prioridades, mas há várias maneiras de sair do casulo, arejar e ampliar os horizontes a um custo mínimo. Um simples sorvete ou café na esquina, por exemplo, podem proporcionar grande prazer a um casal.
Não há dúvida de que o cotidiano cansa. No lar doce lar encontramos conforto e muitas atrações: além do amor, existe a internet, videogames, livros, música, TV, filmes, sem falar na própria vida do casal e da família. A gente até esquece a rua e suas ofertas sedutoras, e mesmo as viagens, com tantas possibilidades de experiências novas. Porém, às vezes, ainda que não falte dinheiro e a vida da casa não esteja tão animada assim, o casal, ou um dos parceiros, não encontra gás para sair. O que acontece?
Todo casal pode passar por momentos desse tipo, um certo cansaço da cara do outro, um gosto amargo de tédio. Mas é uma sensação provisória. Logo volta o entusiasmo, a vontade de compartilhar emoções, experiências.
Agora, se em nove entre cada dez vezes que a chance de uma viagem ou passeio se apresenta pensamos que será tudo igual ao de sempre, com os mesmos diálogos, as mesmas piadas, é hora de acender a luz amarela: o casal, ou um dos parceiros, seguramente não anda em sua melhor fase.
Reconhecer o fato e conversar sobre ele é a primeira providência acertada: cada um deve expressar seus sentimentos sobre si ou a relação, sem medo e evitando cair na caricatura hoje estigmatizada de "discutir a relação". Também não se deve ceder ao receio a respeito de "onde isso pode dar". Porque uma relação que caminha sem promover de forma hegemônica a felicidade faz mal até à saúde. No futuro, estudos deverão comprovar no casal infeliz a matriz de males físicos, dando razão ao ditado popular que reza ser melhor ficar só do que mal acompanhado. Portanto, nada melhor do que "botar para fora", expressar o que incomoda no momento e o que ficou guardado. Sigmund Freud (1856-1939) se referia à Psicanálise como talking cure - a cura pela fala. Funciona!
Aliás, a propósito de Freud, nunca descobri qual de seus amigos lhe falou que "os histéricos são a flor da humanidade". "Tão estéreis, sem dúvida, mas tão belos quanto as flores". Lembrei-me disso porque nos chamados "histéricos" supõe-se que o sistema nervoso, enquanto em repouso, libera excesso de excitação que exige ser utilizado, por isso, talvez, sejam conhecidos por sua inquietude, sua intolerância à monotonia e ao tédio.
Não pretendo com isso dizer que todos os descontentes no casamento são histéricos! E também não vamos negar outras realidades: às vezes, o casal está com o prazo de validade vencido, mesmo. É difícil e doloroso perceber isso - mas não será pior permanecer em uma união infeliz? É algo a se pensar. Outras variáveis, como crises passageiras, depressões temporárias e as singularidades de cada situação também podem interferir nesse cenário. O certo é que quase todos os casamentos que sobrevivem o fazem superando seus inevitáveis impasses. Mas para superá-los é necessário, antes, encará-los.
* Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro (Leblon, Barra e Teresópolis).

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