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08/12/10

Se o tempo acaba com o mistério do relacionamento, o tédio toma conta - Paulo Sternick

Uma pesquisa mostrou que parceiros antigos se conhecem menos do que os recentes. Claro, no começo do relacionamento prestamos mais atenção no outro, pois queremos fortalecer o laço; depois, com o vínculo formado, paramos de nos interessar. A lição é óbvia: um casal não pode se acomodar. É bom também admitir que um nunca conseguirá saber tudo sobre o outro.

No amor, tempo de convivência não tem nada a ver com conhecimento do parceiro. Pelo menos foi o que revelou uma pesquisa feita por universidades da Suíça, da Alemanha e dos Estados Unidos: ao responder sobre os gostos de suas caras-metades - sobre comida, filmes ou móveis de cozinha, entre outras coisas -, casais com idade entre 68 e 72 anos que viviam juntos havia muito tempo levaram uma goleada de pombinhos com 19 a 32 anos, recentemente unidos. Os jovens mostraram saber mais sobre as preferências e o temperamento de seu amor! Como explicar este mistério que aparentemente contraria a velha lógica de que o tempo fortalece a intimidade?
A verdade é que às vezes a convivência escreve outro roteiro. Em vez de ajudar a afinar a sintonia entre os parceiros, acaba por afastá-los, a ponto de jogá-los em uma quase indiferença. No limite extremo, convertem-se em estranhos na mesma casa, sombras ou fantasmas do que já foram um para o outro.
Não é apenas uma questão de idade ou de diminuição da sensualidade: essa relação inversamente proporcional entre tempo de vida em comum e conhecimento do outro, esse desinteresse crescente, acontece também com casais que estão juntos por poucos anos ou mesmo por alguns meses. Abram o olho!
Uma das razões para o fenômeno, segundo a publicação americana Journal of Consumer Psychology, é uma espécie de reação darwiniana errônea: quem está numa relação há mais tempo sente que o vínculo já foi fortemente estabelecido e deixa de prestar tanta atenção no outro. Já os que estão começando a conviver sentem que ainda precisam lutar para cimentar o vínculo - e por isso ficam atentos às preferências, sentimentos e reações do outro.
O erro está em não levarem em conta que a "luta pela sobrevivência" de um casal é interminável, caso contrário descamba para o conformismo, a inércia e a acomodação. Não há casal que consiga manter o interesse recíproco se as partes seguem sendo clones de si mesmas para o resto da vida, se não se oxigenam com novos interesses ou desafios, nem trazem para a relação a ideia de que "a gente não quer só comida", como diz a canção dos Titãs. Para além da imprescindível constância inerente à vida, a repetição monótona e interminável é a mãe dos desânimos. Com o tempo, ela alimenta o tédio, que culmina na indiferença.
Mas este é apenas um lado da questão. Independentemente do tempo de convívio, será que podemos realmente conhecer o outro? Há um paradoxo instigante na relação a dois: o outro, por mais conhecido e confiável que seja, sempre fica a nos dever, pois escapa de ser completamente apreendido. Ainda bem! Aliás, nós mesmos não sabemos direito o que vamos fazer ou pensar amanhã, há sempre um um desconhecido, algo improvável a acontecer. Então, há uma tensão básica entre conhecer e não conhecer o outro, porque, se for diferente, ele não será ele, e sim nós misturados com ele, ou projetados nele.
Fazer parte de um casal implica essa contínua tensão, pois viver um vínculo é diferente de estar em fusão - ou em confusão -, misturado com outro, como se ele fosse uma extensão da gente. Nossa cara-metade deve e não deve coincidir com o que esperamos dela, não sendo inteiramente coerente com as vãs expectativas que mantemos de que tudo se passe conforme nossa lógica e desejo.
* Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro (Leblon, Barra e Teresópolis).

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