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14/12/10

Se os olhares não se encontram, dúvida e medo invadem a relação - Alberto Lima

A retirada do olhar é uma forma de comunicação, porém incompleta, impossível de ser decodificada. Por isso mesmo, quando acontece, logo semeia sentimentos de insegurança e de culpa que podem até ameaçar o relacionamento. Para evitar mal-entendidos, a melhor alternativa é buscar o diálogo sereno. Só ele pode clarear o significado do gesto silencioso.

Quando o olhar de um parceiro encontra abrigo no olhar do outro é sinal de que o casamento vai bem. Mas, se esse tipo de contato é evitado, a indicação é de que a situação não é mais a mesma. Algo se perdeu; está suspenso, quiçá excluído do convívio; foi cercado e protegido na redoma da individualidade e, lá, silenciado.
A retirada do olhar é uma forma peculiar de comunicação: em geral o emissor da mensagem não sabe que a professa, ou não o faz de modo deliberado, e o receptor não tem condições de decodificá-la. Algo se quer dizer, sem que se o diga de um modo possível de ser recebido. Algo é ouvido, pois a falta do olhar vale por um grito ou por uma estranha forma de silêncio. Não há quem fique alheio à descontinuidade na fluidez do contato. Mas, uma vez que não se disse o que se quereria dizer, não é possível entender o conteúdo da comunicação.
A sequência de eventos é previsível. De início, aquele que foi submetido à retirada do olhar experimenta um vago sentimento de estranheza. Demora até que perceba o que está faltando e antes de localizar a falta experimentará um ressentimento, uma tristeza, uma impressão crescente de exclusão. Isso pode doer! O diálogo não necessariamente se cala, como não se interrompe totalmente o convívio. Mas a alegria, o sossego e a segurança dão lugar a incertezas, dúvidas, estranhamentos e temores. O próximo passo é a invasão de fantasias, hipóteses e suposições. Como há uma comunicação, mas não pode ser decodificada, resta ao "abandonado" a tentativa de preencher o vazio com a imaginação. Eis aí o campo fértil para elucubrações. Os temores vêm para o primeiro plano e alimentam hipóteses: "Há outra pessoa; o amor acabou."
O próximo capítulo é o da culpa: "Onde foi que eu errei?" Não raro a retirada do olhar é percebida como punição e, pior, como punição "merecida". O punido se esquece de indagar o que pode haver de errado, de difícil ou de perturbador com o suposto punidor.
Com algum vagar, identifica o foco da dificuldade: "Ele, ou ela, não olha mais nos meus olhos!" A vivência não é a de que se perdeu algo, possível de ser resgatado. O sentimento mais forte é de ameaça: perder a totalidade do objeto amado e ver o amor escorrer pelo ralo.
Há pessoas que, diante disso, não suportam a humilhação e antecipamse ao que supõem ser um incipiente abandono, organizam-se para sair de cena. Outros vão tentar preservar a união a qualquer custo. Mas nenhum desses expedientes contempla o que seria necessário: abrir a situação com toda a clareza, expressar sentimentos, indagar, dispor-se a ouvir, promover uma nova espécie de comunicação possível de ser entendida e assimilada. Numa situação como essa, o casal pode ter preciosa oportunidade para um salto de qualidade na relação.
É possível que haja um ressentimento não expresso, um protesto, uma queixa, um pedido. Mas também é possível que haja um constrangimento, um sentimento de menos-valia, um temor de não ser merecedor ou merecedora da admiração do outro. Olhos que se retraem podem sonegar um aspecto da alma, mas também podem indicar a presença de temores relativos ao andamento das questões amorosas. Só o diálogo sereno poderá clarear a situação. Se houver amor, ele sobreviverá a eventuais conflitos e voltará a vicejar.
 
* Alberto Lima, psicoterapeuta de orientação junguiana, é professor-doutor em Psicologia Clínica e autor de O Pai e a Psique (Editora Paulus) e de Alma: Gênero e Grau (Editora Devir).

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