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18/02/13

A alegria - RUBEM ALVES



Pouco antes de morrer, Roland Barthers pronunciou a sua conferência inaugural como professor do College de France. Sabia que estava ficando velho, mas saudava a velhice como tempo de recomeço, o início de uma vita nuova. E ao terminar sua fala fez uma confissão pessoal espantosa. Disse que havia chegado o momento de entregar-se ao esquecimento de tudo o que aprendera. Tempo de desaprender. As cobras, para continuar a viver, têm de abandonar a casca velha. Também ele tinha de abandonar os saberes com que a tradição o envolvera. Somente assim a vida poderia brotar de novo, fresca, do seu corpo, como a água brota das profundezas onde estivera enterrada. E disse então que este era o sentido de ficar sábio: “Nada de poder;/ um pouquinho de saber;/ e o máximo possível de sabor...”

 

Sendo aquela a ocasião em que estava sendo inaugurado como professor, ele dizia que era isto que pretendia ser, daquele momento para frente: um mestre do prazer, aquele que se dedica a ensinar aos seus jovens alunos o gosto bom das coisas! Quem toma uma decisão como esta está afirmando que o prazer é a única coisa que vale a pena. Vivemos para o prazer. O que é espantoso é que tal revelação lhe tenha sido feita quando ele já deixara para trás os anos da juventude. Talvez que a sabedoria seja coisa crepuscular. Lembro-me das palavras de Hegel, que disse isto de forma poética: “a coruja de Minerva só abre as suas asas quando chega a penumbra que antecede o anoitecer...”

 

Jorge Luís Borges também só viu direito depois que a velhice o cegou. “Se eu pudesse de novo viver a minha vida...”: é assim que ele inicia o seu lindo texto-testamento, confessando que naquele momento deixava para trás tudo aquilo que um dia soubera como sabedoria. Agora, na velhice, chegava o momento de uma nova sabedoria. E ele descreve a vida que viveria, com os olhos de um menino. Sua sabedoria crepuscular era a sabedoria da criança que a educação desterrara e que, naquele momento, retornava. A sabedoria do crepúsculo é um reencontro com a infância. “Se eu pudesse viver de novo a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios, começaria a andar descalço no começo da Primavera e continuaria assim até o fim do Outono. Porque, se não o sabem, disto é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora.”

 

Palavras que não se espera da boca de um velho. Nenhuma advertência solene. Nenhum conselho grave. Nenhuma palavra sombria. Somente o convite à Ieveza. A vida lhe aparece com uma imensa simplicidade: encontros sucessivos e inesperados com a alegria, que está sempre ao alcance da mão. Efêmera, em suas cores crepusculares, mas deliciosa como uma taça de vinho ou um beijo... Daí o seu conselho: “Não percam o agora. Ele nunca mais se repetirá.”

Fernando Pessoa diz a mesma coisa num dos seus poemas.

 

“Dia em que não gozaste não foi teu:/ Foi só durares nele.

 

Quanto vivas/ Sem que o gozes, não vives./ Não pesa que amas, bebas ou sorrias: Basta o reflexo do sol ida na água/ De um charco, se te é grato./ Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas/ Seu prazer posto, nenhum dia nega/ A natural ventura.”

 

É preciso muito pouco. Ela está muito próxima. Mora no momento. Perdemos a alegria porque pensamos que ela virá no futuro, depois de algum evento portentoso que mudará a nossa vida. Mas vida: o que é isto? Como diz o Riobaldo, “vida é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei de uma idéia falsa. Cada dia é um dia.” E a gente fica esperando que ela haverá de chegar depois da formatura, do casamento, do nascimento, da viagem, da promoção, da loteria, da eleição, da casa nova, da separação, da morte do marido, da morte da mulher, da aposentadoria... E ela não chega porque a alegria não mora no futuro mas só no agora.

Ela está lá ,modesta e fiel, no espaço da casa, no espaço da rua. Se não a encontrarmos, não é culpa dela. É culpa nossa. Nossos pensamentos andam muito longe dos lugares onde ela mora e, por isso, nossos olhos não podem ver. Como dizia o Mário Quintana, “quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz: em vão, em toda parte, os óculos procura, tendo-os na ponta do nariz!”.

 

Velhice é quando se percebe que não existe no futuro nenhum evento portentoso por que esperar, como início da felicidade. Mas isto não será verdadeiro da vida inteira? Por isso, talvez, os jovens devessem aprender com os velhos que é preciso viver cada dia como se fosse o último. A alegria mora muito perto. Basta esticar a mão para colhê-la, sem nenhum esforço. Mas, para isto, seria necessário que os nossos olhos fossem iluminados pela luz do crepúsculo.

 (Correio Popular, 12/11/1991)

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