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10/11/10

PIPOCAS DA VIDA - Rubem Alves

PRA QM GOSTA DE PIPOCA, COMO EU... É BOM SABER...

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.  Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.  Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice  e uma dureza assombrosa.  Só que elas não percebem e acham  que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo.   O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor.
Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe,  perder  o emprego ou ficar pobre.  Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui.  Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si.  Não pode imaginar a transformação  que está sendo preparada para ela.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: Bum!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado. Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir  coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho  que não estoura.  No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca,  macia e nutritiva.  Não vão dar alegria para ninguém.

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